"Não é possível refazer este país, democratiza-lo, humaniza-lo, torna-lo sério, com adolescentes bricando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se uma educação sozinha não transforma uma sociedade, sem ela a sociedade tão pouco muda." Paulo Freire

domingo, 11 de janeiro de 2009

DEVORAR OU DEGUSTAR?



Celso Antunes

Se a criança é levada à alfabetização sem o requinte de uma aventura pelo desafio do mundo da palavra e dos segredos da letra, se existe pressa em que se aprenda a ler e se acredita que a leitura pressupõe apenas junção de sílabas, essa criança se tornará um mau leitor e provavelmente devorará sentenças, engolirá textos e jamais saberá arrancar de sua leitura o imenso prazer da verdadeira significação.

Quem degusta e quem devora colocam alimento na boca e, de uma ou de outra maneira, alimentam-se, mas existe uma abismal diferença entre um e outro verbo. O degustar associa-se ao requinte, à paciência, à ternura e ao aprimoramento do paladar, e quem o faz se identifica com a paixão pelo que faz. Já o devorar indica o engolir com voracidade, o corroer com angústia, o colocar-se distante do prazer. Outra expressiva diferença entre devorar e degustar situa-se na prevalência do instinto ou na relevância da educação; para devorar, basta ter a fome e a ansiedade e, dessa forma, devorar representa ação do instinto inscrita nos genes, ao passo que, para degustar, torna-se essencial a educação. Ninguém necessita ensinar ao outro o como devorar, mas é com paciência e ternura que somos levados a aprender a degustar.

Essas reflexões vêm à tona quando se pensa na alfabetização e na leitura. Se a criança é levada à alfabetização sem o requinte de uma aventura pelo desafio do mundo da palavra e dos segredos da letra, se existe pressa em que se aprenda a ler e se acredita que a leitura pressupõe apenas junção de sílabas, essa criança se tornará um mau leitor e provavelmente devorará sentenças, engolirá textos e jamais saberá arrancar de sua leitura o imenso prazer da verdadeira significação. Ainda que juntar sílabas não se constitua em ato instintivo, sua aprendizagem, quando desprovida de ternura e comandada pela agitação da pressa, transforma-se em tarefa devoradora, que caracteriza quem sabe ler, mas jamais bem compreender as linhas e as entrelinhas que com os olhos percorreu. Não é por outra razão, talvez, que 75% dos adolescentes brasileiros obtiveram um escore inferior à média do OCDE (Relatório PISA, 2000) e 10% dos melhores alunos mal alcançaram essa média em avaliações que cobravam compreensão de textos.

Alfabetizar-se é aprender a extrair a pronúncia que corresponde a uma representação gráfica da linguagem oral, é descobrir sentido e conquistar as idéias presentes na mensagem que se lê, e isso não se alcança sem que antes o alfabetizador saiba efetivamente quais conhecimentos de vida e de si a criança possui, quais conhecimentos deve adquirir para chegar a identificar palavras, fazê-las suas, e quais passos deve dar nessa conquista.

Antes de levar a criança à pretensa leitura, é importante que seja convidada a descobrir as convenções da escrita (da esquerda para a direita e de cima para baixo da página), as formas que seu próprio nome assume e a aventurar-se ludicamente em identificar familiaridade com o formato das letras e com suas funções nas palavras, conquistando devagarinho a capacidade de detectar certos fonemas nas expressões que descobre. Esse ensino deve anteceder a própria leitura em si e precisa ser feito com o mesmo sabor com que se faz uma excursão ou um passeio pelo fascínio do faz-de-conta. Não há por que levar a criança à leitura compreensiva antes que ela perceba como devem ser as consoantes pronunciadas, que percorra os labirintos para dominar o som das letras e as comparações entre famílias de palavras.

A mente infantil, por volta dos seis anos, é povoada por sonhos e ilusões, mágicos e bruxas, heróis e dinossauros, e a realidade da alfabetização constitui uma fria operação formal que se impõe com dureza à magia desse encantamento. É por esse motivo que o melhor caminho é o da fantasia, por meio da qual, brincando, a criança descobre histórias e constrói personagens que podem ser as letras, cenários que podem ser as sentenças, ambientes que, cercados de ternura, associam-se ao natural encantamento de um mundo cheio de ilusões.

Quando essa aventura terminar, dure quanto tiver que durar, uma outra começa, e esta, sim, é expressa pela verdadeira alfabetização, na qual a criança é levada a transformar- se de expectador em ator, descobre que letras unidas podem ou não possuir significação e que palavras organizam-se em sentenças segundo o comando de sua mente. Chegará depois a perceber que sem sentido não existe escrita e que são sólidos os elos que unem o ler ao escrever, o pensar e o dizer.

Fonte: www.projetospedagogicosdinamicos.com

Um comentário:

Neily Maria disse...

Olá Andréia! Gostaria que você nos auxiliasse mais uma vez, você tem modelo de diagnóstico atualizado para as faixas etárias 3,4 e 5 anos da educação infantil?
Desde já manifesto agradecimento.
Obrigada por tudo...
Att,
Neily Maria.