"Não é possível refazer este país, democratiza-lo, humaniza-lo, torna-lo sério, com adolescentes bricando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se uma educação sozinha não transforma uma sociedade, sem ela a sociedade tão pouco muda." Paulo Freire

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Durante a 55ª Reunião da SBPC, o presidente do Centro Paulo Freire – estudos e pesquisas respondeu aos principais questionamentos das pessoas que assistiam à conferência Paulo Freire: alfabetização, conscientização, leitura do mundo, ministrada por ele. Confira o debate.


Pergunta de Marilane: Como seria o método Paulo Freire, ou sistema, baseado na educação?

Resposta de Paulo Rosas: O ponto de partida de Paulo Freire não foi o método, mas a educação: a filosofia e a política (ainda que, no início, não falasse, explicitamente, de educação como ato político) da educação, como escreve em Educação e atualidade brasileira. Obra de 1959, escrita como “tese” com a qual se candidatou à cátedra de História e Filosofia da Educação, na Escola de Belas Artes da então Universidade do Recife foi publicada comercialmente somente em 2001, Cortez Editora/Instituto Paulo Freire, de São Paulo.

A constatação de que os métodos de alfabetização de adultos então correntes não possibilitavam a prática dos princípios filosóficos sustentados em sua proposta pedagógica (consciência intransitiva - trânsito - alternativas da consciência massificada ou fanatizada e consciência crítica), Paulo Freire elaborou um método consentâneo com aqueles princípios.
Parece-me importante para a melhor compreensão do problema, ler, de Paulo Freire, Educação como prática da liberdade e Educação e mudança.

As “fases do método”, descritas por Paulo Freire, são as seguintes:

1. “Levantamento do universo vocabular dos grupos com quem se trabalhará”;
2. “A segunda fase é constituída pela escolha das palavras, selecionadas do universo vocabular pesquisado”, obedecendo-se a três “critérios de seleção”: o da “riqueza fonêmica”, o das “dificuldades fonéticas” e o de “ teor pragmático da palavra” (“maior pluralidade de engajamento da palavra numa realidade social, política, cultural”);
3. “A terceira fase consiste na criação de situações existenciais típicas do grupo com quem se vai trabalhar.”
4. “A quarta fase consiste na elaboração de fichas-roteiro, que auxiliem os coordenadores de debate no seu trabalho”;
5. “A quinta fase é a feitura de fichas com a decomposição das famílias fonêmicas correspondentes aos vocábulos geradores”. As fichas seriam, em geral, confeccionadas em slides ou cartazes.

Se bem que Paulo Freire apresente e comente as “fases do método” em diversas ocasiões, as referências acima foram retiradas de Educação como prática da liberdade.


Pergunta de Cilene: Como ter acesso às primeiras experiências de alfabetização no Centro Cultural com as técnicas?

Resposta de Paulo Rosas: Entendo que você se refere ao Centro de Cultura Dona Olegarinha. Paulo Freire trata o assunto em um artigo publicado em Estudos Universitários – Revista de Cultura da Universidade do Recife, n. 4., abr.-jun. 1963). Osmar Fávero, em Cultura popular, Educação popular, memória dos anos 60 (Rio de Janeiro, Edições Graal,1983), transcreve totalmente o artigo de Paulo Freire (p. 99-126) e outros documentos de interesse, elaborados no SEC (Serviço de Extensão Cultural), dirigido por Freire.


Pergunta de Laurileide: Paulo Freire foi exilado por ser o método considerado subversivo?

Resposta de Paulo Rosas: Sim, mas não apenas por isso. Freire estava comprometido com todo um movimento educacional, do qual o MCP (Movimento de Cultura Popular) era um dos alvos mais visados, pelo Golpe de 64. Paulo Freire foi preso (ver: Paulo Freire e Sérgio Guimarães, Aprendendo com a própria história, I, São Paulo, Paz e Terra, 1987, p. 35-61) e, quando posto em liberdade, buscou asilo politico na Bolívia; daí para o Chile, EUA, Genebra, onde permaneceu 10 anos, no Conselho Mundial das Igrejas.


Pergunta de Laurileide: Seria possível implantar, atualmente, o método Paulo Freire no Sistema de Educação Básica (ensino Fundamental e Médio) do Brasil?


Resposta de Paulo Rosas: O “método Paulo Freire” foi elaborado tendo em vista a educação/alfabetização de adultos – ou de jovens e adultos. Os Centros e Círculos de Cultura, como que sucedâneos dos modelos de escolas e de salas de aula, impõem mudanças estruturais no cotidiano escolar É difícil pensar em sua generalização, como método. Entretanto, os princípios da pedagogia freireana podem, sim, ser princípios das práticas pedagógicas, em qualquer nível. Obviamente, muitas barreiras, hábitos, pensamentos deverão sofrer modificações.


Fonte: http://www.paulofreire.org.br/asp/template.asp?secao=abrindo&texto=2

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