"Não é possível refazer este país, democratiza-lo, humaniza-lo, torna-lo sério, com adolescentes bricando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se uma educação sozinha não transforma uma sociedade, sem ela a sociedade tão pouco muda." Paulo Freire

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

PAULO FREIRE DISSE “EU SOU UMA MULHER”: RESENHA FEMINISTA DA OBRA MEDO E OUSADIA – O COTIDIANO DO PROFESSOR.


Aline Lemos da Cunha[1]

Gomercindo Ghiggi[2]

Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS.

alinecunha29@gmail.com

Educação, conscientização e transformação.

Já nas primeiras páginas do livro, Elza aparece como uma mulher que precisa e deve ser referenciada. No prefácio, Ana Maria Saul salienta a presença/ausência de Elza, a qual, faleceu no ano da publicação (1986). “Sinto que Elza não acompanhe a repercussão positiva que ele [o livro] terá” (FREIRE & SHOR, p. 8, 1997), destaca em visível tom de lamento.

“Ousamos” dizer que esse pesar tem, além desta, outras razões. Sendo assim, em grande medida, “Medo e Ousadia: o cotidiano do Professor” deve sua existência à presença marcante de Elza na vida de Paulo Freire. Foi ela que, ao ouvir as falas do companheiro, o alertou para uma visão menos simplista da realidade norte-americana e, viabilizou, com isso, as visitas de Paulo aos EUA e, sendo assim, indiretamente, promoveu o encontro de Paulo com Ira. Numa das passagens do texto, Paulo fala sobre Elza e salienta:

A primeira vez que vim aos EUA, vim por causa de Elza, minha mulher[3]. Quando fui convidado, disse a Elza que não viria, porque eu não teria nada a aprender num país tão imperialista. Elza me disse sorrindo: “Como você é contraditório e ingênuo. É impossível pensar que este país seja apenas imperialista. É impossível que seja só isso. Você tem muitas coisas para aprender lá.” Imediatamente ela me convenceu, e vim aos EUA. Desde então, nunca parei de vir. Venho todos os anos, e sempre aprendo alguma coisa – ainda que seja apenas como é difícil aprender sobre esta cultura!” (p. 73, 1986)

Fala ousada desta mulher. Destacou a “consciência ingênua” de Freire a respeito de algo que lhe parecia tão óbvio. Elza, ao falar com sensibilidade a Freire sobre os Estados Unidos, desvelou uma realidade da qual Freire possuía apenas um ângulo.

Anterior a esta presença de Elza, Freire destaca uma situação de medo que vivenciou na Ditadura Militar e o quanto se preocupou, ao ser removido da prisão, em avisá-la onde estava (p. 43, 1986). Elza, neste momento, era uma mulher que sofria, através de seu companheiro, os horrores da Ditadura no Brasil.

Elza também aparece, nessa obra, como mãe com presença marcante na educação dos filhos. Paulo descreve que, juntamente com ela, repreendia-os sempre que era necessário (p. 62, 1986). Destaca ainda que nunca batiam neles, pois não era necessário e ainda complementa dizendo que falavam seriamente com cada um, sempre apontando os porquês dos “nãos” que ouviam. A Elza mulher, educadora, militante e companheira, aqui aparece como outras tantas mulheres que participam intensamente da educação dos filhos e Paulo destaca um diferencial óbvio, mas ainda necessário de ser lembrado, de que os homens também devem partilhar destes momentos. Porém, visualizamos em meio a tantos acontecimentos citados na própria obra no que diz respeito ao cotidiano de Paulo Freire (detenções na Ditadura Militar, viagens, aulas, palestras, encontros etc), que Elza, muitas vezes, deve ter assumido sozinha tal situação, o que é comum a inúmeras mulheres brasileiras: a vivência de “triplas jornadas”. Sem condenações ou críticas mais ferrenhas a Paulo Freire “pai”, apresenta-se mais um indício da mulher guerreira que foi Elza Freire.

Apesar de não estar descrito nesta obra, vê-se forte influência de Elza na própria consolidação de uma teoria sobre a educação libertadora. Algumas biografias apresentam Freire, como um Bacharel em Direito que nunca exerce esta profissão e que prefere dedicar-se ao ensino de Língua Portuguesa no, então chamado, segundo grau. Elza é sua colega de trabalho, convivem e, posteriormente, casam.

Em 1943 ingressou na Faculdade Direito do Recife. No ano seguinte, casou-se com Elza Maria Costa de Oliveira, professora primária, que exerceria um papel fundamental na vida e na construção das idéias e das práticas de Paulo Freire. Sobre Elza, dizia Paulo 'Ela influenciou-me enormemente. Assim, meus estudos lingüísticos e meu encontro com Elza conduziram-me à pedagogia.' [4]

Carlos Alberto Torres[5], destaca sobre ela:

O fato que marcou mais profundamente Paulo Freire na década de 80 foi a perda de sua esposa, Elza, que faleceu em outubro de 1986. Com o repentino falecimento de Elza, Freire perdeu não apenas sua companhia de existência, amiga e amante, mas também seu otimismo e desejo vitais.

Mesmo que algumas biografias não forneçam mais detalhes sobre Elza, evidentemente é notória sua presença marcante na vida de Freire, mesmo que apontada em breves fragmentos.

Procurar e destacar o cotidiano das mulheres neste livro, atrai para o reconhecimento de algumas que aparecem em seus bastidores. Embora a centralidade do discurso estivesse em Freire e Shor, quem traduziu a conversa? Quem revisou? Quem criou a capa do livro? Quem ajudou na facilitação dos encontros e diálogos? Quem o prefaciou? Mulheres que “co-laboraram”.

Neste momento, destacamos o “Prefácio”, parte interessante de uma Obra, a qual fornece inúmeros subsídios para o leitor. Este prefácio foi escrito por Ana Maria Saul, que hoje coordena a Cátedra Paulo Freire na PUC/SP. Dentre as questões que ela aponta, destaca que as discussões do livro são semelhantes àquelas que Paulo tinha com seus alunos.

Diz que temas, já trabalhados por Freire, adquirem um significado especial sendo recriados através da crítica, clareza, concretude e aprofundamento teórico, ainda maiores. Um destaque muito importante que a autora faz é a percepção de que no livro aparecem as possibilidades da Educação Libertadora para o contexto escolar, pois alguns autores defendiam que as idéias freireanas só eram válidas para os movimentos sociais.

Em um livro que, de acordo com seu tempo, foi escrito com linguagem androcêntrica designando “o professor” como a expressão universal que representa homens e mulheres, estas e outras aparecem nesta obra e, mesmo com pouca visibilidade, contribuíram para que ela pudesse existir.

Mulher, mulheres ou referências ao feminino, Elza e sexismo na obra de Freire, foi a proposta lançada e aceita. O desafio consistia em encontrar em “Medo e Ousadia: o cotidiano do professor”, referências ao feminino. Aqui, destacamos algumas, não todas as que foram encontradas.

Após a realização do mapeamento, pudemos organizar os achados em quatro focos de análise. Em algumas passagens, Freire e Shor, citam a temática sem necessariamente aprofundar-se nela. Em outras, além de citar, a discutem. Também, os termos são citados em outros contextos e, por último, podemos encontrar comentários sobre o tema, sem que tenham sido pensamentos elaborados por Freire ou Shor, apenas descritos por eles.

Em determinado momento, Paulo e Ira, conversam sobre as questões específicas do sexismo e do machismo. Em outros, aparecem referências ao movimento de mulheres, aos papéis desempenhados por mulheres, dentre outros temas bastante próximos.

Primeiramente, aponto as referências feitas pelos autores ao movimento de mulheres em suas diversas formas (movimento de liberação das mulheres, movimento das donas-de-casa, movimentos contra a desigualdade de gênero). Neste momento, Freire e Shor não delimitam mais claramente este movimento social (1986, p. 30 e 83; 1997, p. 52), porém relacionam suas práticas a outros movimentos, salientando, desta forma, a necessidade de que as lutas sejam compreendidas em um contexto mais amplo, na busca de uma sociedade mais justa.

Também aparecem, referências ao feminino que se encontram imersas em outros contextos de fala, mas que remetem a uma discussão de gênero, como no caso em que Ira conta uma situação ocorrida durante sua vivência como aluno de ensino fundamental (1997, p. 18).

Mesmo que o central desta fala seja descrever o silenciamento promovido por ações autoritárias no interior do ambiente escolar, é muito marcante a referência feita por Ira sobre sua mãe. Ela é uma mulher que, em nome da escolarização do filho, falta ao trabalho e ainda se depara com outra mulher que, julgando-se em situação privilegiada (status de professora frente uma mãe da classe trabalhadora), é intransigente em seu comentário. Mulheres que disputam espaços e autoridades com outras mulheres. A mãe de Ira Shor, frente à sua condição, recua e deixa visível que o gênero pode unir as mulheres, mas a luta de classes as pode distanciar[6].

Em outro momento é Paulo Freire que apresenta uma situação relevante. Ao discutir com Ira sobre a Ditadura Militar, ele fala sobre um trabalhador negro que relata algo semelhante ao que ele viveu (1986, p. 44). Ao ser interrogado e preso, o homem conta o medo que teve, pensando em “sua mulher” e filhos. Anteriormente, o pronome possessivo para designar a companheira já foi utilizado, inclusive por Paulo Freire para referir-se à Elza. A linguagem, mesmo que neste momento não venha sintetizar o pensamento de Freire, nem tampouco deste trabalhador do qual tenho apenas um fragmento para discutir, é um indicador de uma lógica androcêntrica e patriarcal. Mesmo nesta relevante sutileza, cabe pensar sobre o papel desempenhado pelas mulheres na situação de esposa e mãe. A mãe de Ira estava sozinha na situação ocorrida na escola, ela faltou ao trabalho para estar lá e foi hostilizada pela professora (também mulher, assumindo uma lógica de autoridade capitalista e patriarcal). A companheira deste trabalhador descrito por Freire, assim como Elza, também enfrentou os horrores da Ditadura, porém, em grande medida, sua ação foi invisibilizada. A ousadia deste homem, pode ter significado constantes momentos de angústia para ela que, sozinha em vários momentos, assumia a criação dos sete filhos. Disso, raramente se fala.

Existe um trecho no livro (1997, p. 47) onde aparece algumas considerações mais gerais sobre os temas relativos ao sexismo, incluindo-o, mais uma vez, entre as lutas por justiça social. Paulo Freire, em vários momentos, conta casos envolvendo algumas estudantes dos cursos em que era professor e há, também, o destaque a uma mulher militante em Guiné Bissau, que ele conheceu (1997, p. 57; 1986, p. 62; 1986, p. 112).

Paulo e Ira em algumas passagens onde falam sobre a mudança social, destacam o papel fundamental de “homens e mulheres”, as implicações deste modelo social sobre “homens e mulheres”. Neste momento, em sua forma de se expressar, abandonam a centralidade masculina do discurso, onde há a generalização da palavra “homem” para designar tanto homens quanto mulheres. É interessante perceber que Ira e Paulo tenham feito isso ao referir-se à mudança social, pois realmente, parte da mudança está em que percebamos as implicações de falas onde o padrão androcêntrico hegemônico é escolhido (1986, p. 71; 1986, p.100; 1986, p. 106; 1997, p. 199)

Já no encerramento do livro, há uma belíssima passagem sobre o sonho e a utopia. Paulo Freire fala que “ser um profeta”, dentre outras coisas, não significa ser uma “mulher louca” (p. 112, 1986). Destaca que o sonho, mesmo considerado loucura, deve continuar existindo na intenção de “denunciar o presente e anunciar o futuro” (1997, p. 220).

Segundo Marcela Lagarde y de los Ríos (2005), para as mulheres, são loucas todas as outras (talvez era o que estavam pensando, respectivamente, a mãe de Ira Shor e a professora dele) e para os homens, todas as mulheres são loucas. Então, Freire foi muito oportuno em salientar que as mulheres que dizem a sua palavra, que professam, são consideradas loucas. Freire sabia desta máxima hegemônica e destacou-a com precisão. Aqui, Paulo denunciou a opressão feminina. Marcela (2005), além deste apontamento, salienta que as feministas, também são “loucas” e, provavelmente, não deixem de se enquadrar, as análises propostas neste texto...

Em determinado momento no diálogo, Paulo e Ira, discutem pontualmente a questão do sexismo e do machismo. Por ser uma conversa densa e impregnada de sentidos, optamos por comentá-la, indicando o que parece mais significativo em alguns pontos. É uma longa passagem no livro (1986, p. 100-103 / 1997, p. 195-200) onde abordam a temática e posicionam-se.

A pergunta de Ira para Paulo sobre este tema vem na seqüência de uma série de considerações sobre o comportamento das mulheres em suas aulas. Ira destaca que elas são interrompidas pelos homens, mas não os interrompem. Que seu tom de voz é mais baixo e que ele intervém em situações onde percebe que o direito de fala das mulheres está sendo desrespeitado. Ira destaca, através deste comentário, uma categoria apontada por Bourdieu (2003), uma espécie de agorafobia socialmente imposta às mulheres, ou seja, um relativo medo da manifestação pública. Por ter sido “destinado” às mulheres o espaço do privado, em público, como em uma sala de aula, pode ser difícil para que algumas delas se manifestem e ainda mais, na presença de vários homens (incluindo um professor). Além desta agorafobia, outro fator relevante é que perpassa no imaginário masculino, que as mulheres falam demais, falam futilidades e isto, de pronto, suprime o seu desejo de ouvi-las.

Na seqüência, Ira faz uma declaração um tanto interessante. Diz ele que para os “não-brancos” é mais difícil do que para as mulheres, a manifestação em sala de aula, porém, questionamos: existiam mulheres negras nas turmas onde Ira é professor? Se existiam, mais uma vez não será mais difícil para as mulheres negras se manifestarem já que “acumulam” dois fortes marcadores sociais?

Ao destacar esses fatos, Ira pergunta a Freire se o sexismo e o machismo são problemas de sala de aula no Brasil. Freire responde que sim. Ao responder complementa dizendo que “somos uma sociedade fortemente machista e não marxista” (1997, p.196). Fala oportuna a de Freire, embora, seja relevante perceber que algumas feministas defendem (Muraro, 2001) que a categoria “classe social” não deu conta da problemática das mulheres, pois, no interior de uma mesma classe, existe a opressão de gênero. Portanto, ser marxista não significa, de imediato, deixar de ser machista.

Freire ainda comenta sobre um programa de televisão do qual participou. Disse que ao ser interrogado por mulheres, sobre o movimento de mulheres, falou de uma outra entrevista da qual participou em Londres, onde declarou “Eu também sou uma mulher!”, a repercussão disso foram telefonemas recebidos por conhecidos seus do Nordeste do país. Paulo destaca que não fez esta declaração por demagogia ou para ser agradável entre as mulheres, mas para especificar a sua capacidade de integração à causa do movimento. Isto remete a uma reflexão.

Freire diz que as mulheres ingênuas não são capazes de compreender a presença masculina advogando na luta contra o machismo e que as mulheres críticas, prontamente, aceitarão a contribuição. Mesmo assim, é importante salientar que: mesmo sendo simpático ao movimento e lutando contra o sexismo, sendo homem, branco e heterossexual, Freire, com propriedade, pode reconhecer a causa e militar, porém, jamais será uma vivência tão visceral quanto a que se passa com mulheres em seu cotidiano. Obviamente, na contramão disto, mulheres que, impregnadas de uma lógica patriarcal ignoram a luta ou se eximem dela por comodidade, também não haverão de sentir, como Freire, o desejo de que a realidade seja diferente. Por isso, ouso dizer que a frase poderia ser mais bem empregada se ele dissesse: “Me sinto como uma mulher”, ao invés de dizer que é uma delas.

Freire deixa o convite para a mudança que, segundo ele, deve ser protagonizada por quem ainda é capaz de ter esperança. Sendo assim, acredita em homens e mulheres que longe de serem incluídos num sistema capitalista opressor, pretendem tornar-se livres para ser o que desejam, de forma que suas diferenças não signifiquem segregação.

Referências bibliográficas:

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 3.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

DE LOS RÍOS, Marcela L. Los cautiverios de las mujeres: madresposas, monjas, putas, presas y locas. 4. ed. Coyoacán: México, UNAM, 2005.

FREIRE, Paulo, SHOR, Ira. Medo e Ousadia: o cotidiano do professor. 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. (versão impressa)

FREIRE, Paulo, SHOR, Ira. Medo e Ousadia: o cotidiano do professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, 116 p. (versão PDF)

MURARO, Rose Marie. PUPPIN, Andréa Brandão. Mulher, gênero e sociedade. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.



[1] Doutoranda em Educação.

O presente trabalho foi realizado com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq – Brasil.

[2] Professor Titular da FAE/UFPel. Atualmente Coordenador do PPGE nesta Universidade.

[3] Como o objetivo, neste momento, é falar sobre Elza, mais tarde, provocaremos um debate sobre o uso da expressão “minha mulher”, empregada por Freire referindo-se a Elza. Expressão tão questionada por alguns estudiosos da teoria freireana no que diz respeito a Ana Maria Freire (companheira de Paulo após o falecimento de Elza) que o chama de “meu marido”.

[5] TORRES, Carlos Aberto. Paulo Freire: uma biografia intelectual. Disponível em: http://www.paulofreire.org/torres_pf.htm. Acessado em 24/03/2007.

[6] Esta frase foi proferida em uma reunião da Setorial de Gênero do Partido dos Trabalhadores por uma companheira referindo-se às empregadas domésticas e suas patroas, há alguns anos atrás.



Fonte: www.ceamecim.furg.br/~tusnski/paginas/paulofreire/inscricoes/FILES/p51.doc -

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