"Não é possível refazer este país, democratiza-lo, humaniza-lo, torna-lo sério, com adolescentes bricando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se uma educação sozinha não transforma uma sociedade, sem ela a sociedade tão pouco muda." Paulo Freire

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A Pátria sangra


Mario Sergio Cortella

Urge estancar a hemorragia cidadã

O Brasil é o quinto país do mundo em tamanho, mas o primeiro em terras aproveitáveis; tem 8,5 milhões de km2, apenas 172 milhões de habitantes, 8 mil quilômetros de costa marítima, as duas maiores reservas de biodiversidade do planeta Terra (Amazônia e a mata atlântica), as maiores bacias hidrográficas para a geração de água, transporte e vida, e as maiores reservas de minério ainda não exploradas do planeta. É um país que não tem terremoto forte, não tem vulcão, não tem maremoto, nem geleira, ciclone, furacão, tufão, deserto, nevasca.

Já podeis, da Pátria filhos, ver contente a mãe gentil?

Desde a Independência formal - e lá se vão 180 anos - podemos considerar que foi atingida a veracidade desse verso de Evaristo da Veiga? Chegou, finalmente, a hora do maternal e sincero sorriso pátrio em uma nação que, por enquanto, é uma das dez economicamente mais ricas deste planeta?

Sorri ou sangra a Pátria quando da divulgação anual do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elaborado pela ONU e que, agora, entre 173 países, obtivemos o lugar 73 no que se refere à qualidade de vida básica de seus moradores? Sorri ou sangra a Pátria quando percebe que a causa para esse descalabro está apontada no mais recente relatório de concentração da renda (Índice de Gini) emitido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, no qual o Brasil só não é derrotado nessa macabra competição pelos economicamente miseráveis países africanos de Serra Leoa, República Centro-Africana e Suazilândia?

Sorri ou sangra a Pátria quando da divulgação anual do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elaborado pela ONU e que, agora, entre 173 países, obtivemos o lugar 73 no que se refere à qualidade de vida básica de seus moradores? Sorri ou sangra a Pátria quando percebe que a causa para esse descalabro está apontada no mais recente relatório de concentração da renda (Índice de Gini) emitido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, no qual o Brasil só não é derrotado nessa macabra competição pelos economicamente miseráveis países africanos de Serra Leoa, República Centro-Africana e Suazilândia?

Brava gente brasileira. Segue vitimada por inéditos níveis de desemprego; permanece refém de um excludente e oneroso sistema público e privado de saúde; amarga a indigência e a disparidade na previdência social. E resiste. Prossegue em agressiva ausência de condições gerais de habitação e saneamento; continua aguardando a consecução efetiva de uma reforma agrária e urbana abrangente e consistente; padece a truculência da fome e da deficiência alimentar. E resiste.

Brava gente brasileira. Paulo Freire dizia que "não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã".

Cidadania ferida, a Pátria ainda sangra. Mas não para sempre.

Mario Sergio Cortella é filósofo e professor de Pós-Graduação em Educação na PUC-SP. Artigo publicado pela Revista Educação, edição de Setembro de 2002.

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